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Posts Tagged ‘solsticio de verão’


Eram dez e vinte da manhã e, após horas esperando em vão minha mala surgir na esteira, me dirigi ao balcão da Air France, onde anotaram o endereço e juraram de pé junto que levariam a mala para mim, o que aconteceu mais tarde naquele dia. Liguei para meu amigo Fernando e, só depois que o telefone comeu duas preciosas moedas, entendi como operar e consegui completar a ligação. Ele não estava em casa, mas a chave me esperava debaixo de uma pedra, ao lado da porta. Não foi difícil localizar a passagem que conectava o aeroporto ao metrô. A essa altura, já estava babando com tudo o que via, apesar do contratempo da mala.
Desci do metrô em Waterloo, estação onde deveria pegar o trem na direção de Wimbledon. Um lugar lindo. O sol entrava pelas paredes envidraçadas banhando em luz os quiosques, a maioria de comidas e parecia tudo delicioso, por isso não comi nada, não consegui escolher. A multidão ia e vinha em todas as direções.
Cheguei dois dias antes do solstício de verão. Pessoas às pencas nas ruas já se amontoavam onde batesse o sol, pareciam brincar de frango assado. Um mês e meio depois começam as férias escolares e o Reino Unido vira um inferno. Os lugares enchem de famílias viajando, longas filas para tudo, albergues lotados, o que viria a atrapalhar meus planos.
Queria ver druidas, lugares mágicos, o Merlin em pessoa, caso ele se dispusesse a me encontrar. Eu aprendi que, se você não fez reservas, evite a temporada de férias local. Aprendi também que comprar passagens de ida e volta (“return ticket”) representa uma significativa economia, mas fica difícil alterar os planos. Se conhecer gente legal e quiser continuar com eles, é melhor estar livre. Na verdade, o ideal é alugar um carro, eu não o fiz por medo de causar acidentes, pois na Inglaterra se dirige na contramão. Não quis arriscar, depois me arrependi. Coisas de primeira viagem.

O Solstício de Verão acontece no dia 21 de junho, mas a festa começa no anoitecer do dia 20. Eu saí do Brasil no dia 17, e cheguei lá dia 18. Tinha pouco tempo para confraternizar com meu amigo e sua família. Dia 19 fui bater pernas em Camden Town e despenquei cedo para Victoria Station no dia 20. Não havia mais passagens diretas para Salisbury ou Amesbury, as cidades mais próximas de Stonehenge. Sendo assim, a moça no balcão do lastminute.com me embarcou para Bristol, garantindo que de lá conseguiria chegar ao meu destino, o que de fato aconteceu. Conheci no ônibus um casal que também ia para Stonehenge, assim fomos juntos. Em Salisbury (londrinos pronunciam “Sálsbri”, como Fernando me informara na véspera), fizemos compras no supermercado. Lá é como aqui: se você compra um produto com a marca do mercado é mais barato do que os similares, embora seja igual. Depois pegamos o ônibus  para Stonehenge, que então era gratuito. O casalzinho ia cantando algo que até hoje é um mantra para mim: “We all came from the Goddess/ and to the Goddess we’ll return”. Vinham do País de Gales e mencionaram uma aldeia onde os habitantes ainda viviam como na Idade Média. Quis anotar o nome do lugar, mas nos perdemos (ou eles fugiram de mim) ao chegarmos. Batemos fotos na frente do ônibus. Lamentavelmente, deletei a deles mais tarde, pois os cartões de memória de fotografia nesse tempo só armazenavam até 256 MB. Precisei apagar muitas fotos para bater outras durante a noite, pois só tinha dois cartões.
Stonehenge se localiza em Wiltshire, numa enorme planície coberta de pasto, cortada pela rodovia. O terreno em volta do círculo de pedras estava cercado e só abriram os portões por volta das dez da noite. Saí correndo e fui uma das primeiras pessoas a chegar às pedras.

I arrived in London 10:20 a.m. and, after hours waiting in vain for my suitcase, went to the Air France balcony, where they took note of my adress to deliver it, what came to happen indeed, later in the afternoon. I decided to call my friend Fernando, but the public telephone ate two of my precious coins before I understand how to complete the call. My friend wasn’t home but the keys were hidden in the yard waiting for me. So I found the corridor leading to the subway station, and went to Waterloo Station, where I was supposed to take the train for Wimbledon. Waterloo is a beautiful place, all glass windows where the morning sun found its way to bathe the kiosks of appetizing food and the crowd going to and fro. I ate nothing after all, it was hard to choose!
I arrived two days before Summer Solstice. All over the streets lots of people were sitting wherever the sun shone, turning like chicken roasting.
One month later the school holidays would start and the United Kingdon turn into hell. Everywhere long queues, full hostels, the streets crowded with families travelling. That would disturb my plans, because I had no bookings, only in Glastonbury.
Later I found out that buying return tickets was much cheaper, but makes it harder to change your plans if you, for instance, meet nice people and want to keep on with them. To go where I wanted, the best would be to rent a car, but I was afraid of causing an accident, because in England people drive in the contrary side.

Summer Solstice is June the 21th, but the celebration starts the 20th night. I arrived the 18th, so there was not much time to stay with my friends. The 19th I went for a walk in Camden Town and left early for Victoria Station the 20th. There were no tickets left to Salisbury or Amesbury, the cities closest to Stonehenge. But the girl in the Lastminute balcony put me in a coach to Bristol, assuring me that from there I could reach my destination, what was true. In the coach I made friends with a young welsh couple who was going there too. They sang a song which still is a mantra to me: “We all came from the Goddess and to the Goddess we’ll return”.
In Salisbury we went to Tesco buy some stuff before boarding the bus to Stonehenge, which was free. They told me about a place in Wales where people still live like in the Middle Age, but I lost them before I could write it down. We took photos of each other in front of the bus; sadly I had to erase theirs: the largest memory cards in that time could only keep 256MB. I had only two cards, and the whole night full of pictures to take.
Stonehenge stands in a massive grassy plain cut by the road. There was a fence around the stone circle. The gates were open around 10p.m.; I ran like the wind and was one of the first to reach the stones.

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Avalon era uma ilha envolta em brumas, perto da Abadia de Glastonbury – daí esta cidade entrar na minha lista de lugares para serem conhecidos. No tempo do rei Arthur, o mar ficava pouco adiante. Na maré alta, o nível da água subia. Na maré baixa, o terreno ficava pantanoso, daí as brumas. Séculos de alterações climáticas e drenagens visando tornar aquela extensão de terra cultivável transformaram o terreno no lugar que é hoje a região de Somerset. O que era a Ilha de Avalon agora é apenas uma colina – o Monte Tor. Contudo, seu espírito ainda está lá, e jurei a mim mesma que haveria de pisar naquele solo sagrado.
Passei a procurar avidamente por livros sobre esse assunto. Quem nasceu na década de 60 não tinha computador, nem existia internet. Isso dificultava tudo. Em livrarias, apenas As Brumas tratavam da história de Arthur. Até que um dia caiu em minhas mãos The Crystal Cave, livro de bolso em inglês de autoria de Mary Stewart. Aliás, não um, mas quatro volumes contando a história a partir do ponto de vista de Merlin!
Existem controvérsias se Merlin era um determinado ser ou um título – o Merlin da Bretanha, o mais poderoso dos druidas, chefe dos demais. De toda forma, este personagem é associado pelos estudiosos ao País de Gales, onde se supõe que sua caverna esteja localizada – é a Crystal Cave do título do livro. Assim conheci novos personagens e mais luz foi lançada sobre outros. Foi um grande incentivo para desenvolver meu inglês, que não era tão mau.
Comecei a estudar Wicca (religião pagã ancestral, que tem paralelos com o druidismo) depois de ler A Cozinha da Bruxa, de Marcia Frazão, e aprendi sobre o ciclo das estações, foi assim que o sonho de presenciar o Solstício de Verão em Stonehenge veio à tona. Em 2005, trabalhava como freelancer, o que me dava certa liberdade. Sempre que ganhava algum dinheiro, comprava euros e libras. Certo dia, procurando na web, achei o site Isle of Avalon, de um pessoal justamente de Glastonbury. Pesquisando vi que ficava perto de Stonehenge, onde até hoje se comemora o Solstício de Verão. Rota traçada! Contatei um amigo que vive em Londres há anos; ele me garantiu uns dias de estadia. Ainda no site de Avalon, achei um ashram (comunidade que visa evolução espiritual), onde aceitavam hospedar voluntários. Fiz o contato por e-mail explicando que viria do Brasil e me propunha a pagar a estadia com trabalho, e alguém que assinava Ehlan respondeu. Achei que fosse uma mulher pelo nome, mas era um homem! Ele propôs uma data em que teriam vagas; como seria pouco depois do Solstício, aceitei.
Consegui a última passagem pelo preço de baixa estação na Air France, parcelada no cartão de crédito. Dois dias antes do Solstício. O passaporte já estava pronto havia mais de um ano. A primeira coisa que se faz quando se quer viajar é tirar um passaporte.
Desembarquei em Heathrow dia 18 de junho de 2005.

Avalon was an island amongst mists, near the Glastonbury Abbey; so this city entered my travel wish-list. In Arthurian times, the sea was just ahead. Flooded in the high tide, the terrain turned to a swamp in the low tide, what explains the mists. Centuries of climate changes and draining work to enable agriculture dried the land which is Somerset nowadays. Of the Isle of Avalon only a hill was left – The Mount Tor, but I knew its spirit lingered, so I swore I’d set my feet in that holy land.
I started looking for more books on the subject, unsuccessfully, until the day I found The Crystal Cave, of the english writer Mary Stewart. And it was not only one, but four books telling Arthur’s story from Merlin’s point of view.
There are controversies if Merlin was one person or a title – The Britain’s Merlin, the most powerful druid, chief to the others. Anyway, this character is related to Wales, where his cave was supposed to be located, the crystal cave of the title. This book threw light over some characters and introduced me to others in Arthur’s tale.
I started to study Wicca ( ancestral pagan religion, that holds resemblance to druidry) after reading The Witch’s Kitchen, written by Marcia Frazão, and learned about the wheel of the seasons. Then emerged my dream of going to Summer Solstice in Stonehenge. In 2005 I worked as freelance, what provided me some freedom. Everytime I could I set money apart to buy pounds and euros. And one day found in the web the site Isle of Avalon, from people in Glastonbury. After a bit of research, I realized the two places were a short run from each other. In the same site I found a hostel, actually an ashram where voluntaries were accepted, so I e-mailed them proposing to pay my lodging with work, and they had vacancies for a few days after the Solstice!
After set this up, I contacted a friend who has been living in London for years, who assured me I could stay with his family a few days. I got the last low-season ticket in Air France, to pay in my credicard in six parcels, and my passport was ready. First thing to do when you want to travel is have a valid  passport, I had seen to that one year before. So, the 18th June of 2005 I landed in Heatrow.

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