
Cardiff Castle, Wales
Quando acordei na manhã seguinte, Tony havia saído. Era dia de feira. Voltou com queijo, ovos, pão e chouriço. Esses últimos foram para o forno sobre uma grade toda grudada de vestígios de pães e chouriços anteriores, e os ovos fritos em uma frigideira de aspecto idêntico, mas achei o breakfast uma delícia. Até o chouriço provei: Anthony ficou ofendido quando falei que era peixetariana e me deu a maior bronca pela frescura, pois ele tinha ido comprar os víveres especialmente para que eu provasse produtos orgânicos, tudo produzido ali mesmo em Somerset.

O Pendragon, símbolo de Uther e de Arthur, é a bandeira do País de Gales. / The Pendragon, Uther’s and Arthur’s symbol, is Wales’ national flag.
When I woke up next morning Tony wasn’t home. He’d gone to the Street Market, and came back with cheese, eggs, homemade bread and black pudding. The last were put in the oven, on a sticky grill where traces of former slices of bread and black pudding still lingered on. The eggs were scrambled in a pan as dirty as the grill, but breakfast was delicious nevertheless. I ‘ve even tasted the black pudding. Anthony was very aggrieved when I told him I was piscatarian, and scolded me for being so whimsical. He had bought all that food specially for me, so I could taste Somerset fresh organic products.

No País de Gales há Pendragons por toda parte / Pendragons are everywhere in Wales

Tudo é Pendragon/ Pendragon is all over
Meu amigo, ao seu jeito, era um perfeito cavalheiro. Quando andávamos pela estrada, ele se punha entre eu e o movimento dos carros. Compartilhava da minha sintonia com o rei Arthur, sabia tudo a respeito e acreditava mesmo ter sido um dos cavaleiros. Fui embora antes que me apaixonasse pelo inglês louro, de olhos azul safira e nariz romano, mas que vivia de seguro-desemprego e parecia nunca lavar sua roupa. Ele disse que sentia falta de uma mulher para tomar conta da casa e que se casaria comigo. Eu teria um passaporte inglês. Refleti e, observando o estado do apartamento, achei melhor declinar a oferta.

Inglês e Gaélico / English and Gaelic
My friend was a perfect gentleman in his own way. We also shared King Arthur’s vibe. He knew all about the story and even believed he’d been one of the knights. I left Glasto before I fell in love with that blond, sapphire blue-eyed and roman nosed Englishman, who, on the other hand, lived on unemployment insurance and apparently never did his laundry. He told me that he missed a woman to take care of his home and that he wanted to marry me. I’d get an English passport! But thinking over it, and taking a look at the apartment , I thought better to turn down the proposal.

Meu hostel em Cardiff / My hostel in Cardiff
Voltei para Londres com um nó na garganta. Poderia ter ido direto para o País de Gales, mas na mochila não tinha nem mais uma peça de roupa limpa. Não tomava um banho decente há dias, meus tênis estavam cor de bosta. Precisava baixar todas as fotos, apesar de ter comprado mais um cartão de memória em Bristol, na volta de Iona. Queria fazer uma refeição sentada à mesa, usando garfo e faca normalmente. Contudo, no caminho para a Tilehurst Road em Londres, minha garganta começou a fechar como se eu estivesse sendo estrangulada. Atribuí a sensação às lágrimas que engoli durante toda a viagem pensando no quase romance que acabara de viver. Nunca ninguém me pedira em casamento antes. Sou uma boba mesmo.

A rua do hostel / The hostel’s street
I could have taken a train straight to Wales, but there was not a single clean piece of cloth left in my backpack. I hadn’t had a proper bath for days, and my sneakers were dung colored. I needed to download all photos, though I ‘d bought one extra memory card in Bristol, on my way back from Iona. I wanted to have a normal meal, sitting at a table, using cutlery. In spite of all that, I was choking all the way to London, as if being strangled. I’ve credited the feeling to the tears I’d been swallowing along the way, thinking about the romance I’d been so close to live, and regretting my stupidity. Nobody had ever proposed to me before.

A rua do hostel; do outro lado do rio fica o Estádio da capital / Hostel’s street, with Millenium Stadium just across the river
Como Fernando e as crianças não estavam quando cheguei, fiz um pouco de terapia do grito primal – isto é, urrar feito um urso drogado – para ver se melhorava, mas o alívio não correspondeu à expectativa. Só no outro dia descobri o que de fato sentia: a faxineira apareceu se queixando de alergia, com sintomas semelhantes aos meus, devido à concentração de pólen no ar naquela época do ano. Fiquei curada quase instantaneamente.

Millenium Stadium
Fernando and his kids were not home when I arrived at Tilehurst Road. So I took my time for some Primal Scream Therapy – that is, start bellowing like a stoned bear – in a vain try to feel better. I was still choking. Next day, the cleaning woman came by complaining of the same symptoms. According to her, it was allergy, due to the season’s high concentration of pollen in the air. So when I’ve found out what the real problem was, I felt immediately healed.

Hostel’s backyard / Jardim nos fundos do hostel
Descansei alguns dias antes de pegar o trem para Cardiff, capital do País de Gales. A viagem levaria apenas duas horas, mas minha roupa precisou ser lavada mais de uma vez para desencardir. Os tênis ficaram de molho um dia inteiro. Eu tinha esquecido de que cor eram! Reservei três noites no albergue considerado o melhor de todo o Reino Unido, que ficava a cinco minutos a pé da estação. Era, de fato, limpíssimo, arrumado, bem decorado, tinha camas confortáveis, sala de TV com Wi Fi, e até um jardinzinho nos fundos e cozinha muito moderna. Servia um farto café da manhã incluído na diária, com iogurtes, granola, corn flakes, pães, bolos, croissants, geléia… tudo menos queijo. Não entendo qual o problema dos britânicos com queijo no desjejum, para mim, é fundamental!

Do hostel ao castelo, caminhada de dez minutos atravessando esta linda ponte. / From the Hostel to the Castle it was a ten-minute walk, crossing this lovely bridge.

Chegando ao Castelo de Cardiff. Rua em obras. / Arriving at Cardiff Castle. Street in mainteinance.
I’ve rested a couple of days before taking the train to Cardiff, in Wales. it was a two-hour trip, but my clothes were so filthy that they had to be laundered twice. My sneakers had to be soaked overnight. I had even forgotten their real color! In Cardiff was located the best hostel of all UK, and there I booked three nights. It was a five minute walk from the train station. The place was indeed clean and neat, with comfortable beds, TV room, free WiFi, and a cosy little garden. The kitchen had all modern appliances. A rich breakfast was included: assorted cakes, cookies, croissants and bread, yogurt, cereal, corn flakes, honey, jam… everything but cheese. I don’t understand why the British have no cheese at breakfast. For me it’s essential.

Entrada do Castelo / Cardiff Castle’s entrance
Meu passaporte ficou guardado em Londres. Fernando me garantiu que eu não iria precisar mostrá-lo em nenhum momento e ele estava certo. Mesmo assim, levei uma xerox na mochila. No meu quarto dormiam uma moça, um adolescente metaleiro e um rapaz de Jerusalém. Este queria comprar casa em Cardiff e estava há três semanas desenrolando papelada e burocracia. Nenhum deles quis ir comigo ao Castelo de Cardiff, que ficava a três quarteirões. O ingresso comum custa onze libras e o com visita guiada à antiga residência dos Bute (nobres que eram donos do castelo) custa quatorze.

Vista do Castelo / Castle view
I had left my passport in London. My friend Fernando assured me I wouldn’t need it, and he was right. Nevertheless, I had a copy in my backpack. I was sharing the room with a young lady, a metalhead teenager and a guy from Jerusalem, who wanted to buy a house in Cardiff and had been the last three weeks trying to comply with bureaucratic requirements. None has wanted to go with me to Cardiff Castle, three blocks away. The entrance costed 11 pounds, or 14 including a guided tour to the Bute’s Palace.

A rua em frente ao castelo / Street across the Castle
No museu do castelo, a cada meia hora, passava um filminho contando sua história ao longo de dois mil anos de existência. A personagem é uma menina que adormece enquanto desenha o castelo e sonha que está participando de acontecimentos em diferentes épocas. Aparecem normandos, decuriões romanos, vikings e outros inimigos que tentam tomar o caderno de desenhos da menina, mas um rapaz surge para ajudá-la. Eles saem correndo e escapam milagrosamente de todos os obstáculos com simples chutes e empurrões. O cenário, que é o próprio castelo, também vai se modificando. Assim o filme mostra as sucessivas invasões de todos os povos que fazem parte do DNA do Reino Unido.

Palácio da família Bute / Bute family’s home
In the Castle Museum, each half hour a short very naive movie was replayed, narrating the place’s history through the two centuries of its existence. The main character was a girl who falls asleep while drawing the castle. In her dream, she is threatened by enemies from the different times – Normans, roman soldiers, vikings – who, one after another, try to steal the sketchbook from her. A boy appears to help her. They run a lot and manage to escape miraculously just by kicking and pushing away their foes.The location is the very castle, the movie shows how it’s changed through the ages. The movie depicts the sequential invasions of all people whose DNA is nowadays mingled with the British.

Dentro do castelo / Inside the Castle
Quando se fala em invasão, imaginam-se logo centenas de navios desembarcando milhares de soldados para ocupar um território de uma vez e para sempre. Na Britannia não foi assim; foi um processo lento. Ao longo de séculos, invasores de diversas origens chegaram. Uns foram repelidos; outros conseguiram se estabelecer; alguns precisaram abandonar seus primeiros assentamentos para ir plantar-se mais adiante. Mas acabaram por miscigenar-se à população local e enraizar-se em solo britânico.

Subindo / Going upstairs
When one speaks of invasions, you always imagine hundreds of ships landing thousands of soldiers to invade a kingdom or a region at once and forever. In Britain that’s not how it happened. It was a long and slow process. Through centuries, invaders have arrived and been repelled; others managed to succeed in settling down; some were driven from their first settlements to somewhere else, but eventually they’ve mingled with local people and taken roots in British green and pleasant land.

Vista dos fundos do Castelo / Castle’s back view

Vista surreal: um palácio neogótico vitoriano com um enorme estádio ao fundo / Surreal landscape: a Victorian Gothic Revival mansion with a huge modern stadium in the background

Caminho ao longo do muro / Footpath by the walls

Fosso em volta do castelo / The ditch around the castle
A história do País de Gales fica evidente em suas línguas, o galês e o inglês, ambos parte do currículo escolar e presentes em todas as placas de sinalização, que são bilíngues. O site oficial do país abre em galês, você tem de mudar a opção de idioma para ver a versão em inglês. Senti um forte movimento de recuperação de identidade local, depois de séculos de domínio inglês. O País de Gales parecia acolher bem os imigrantes. A guia do city tour de Cardiff mostrava orgulho ao apontar uma escola que abrigava estudantes de mais de cem nacionalidades diferentes. Meu companheiro de quarto era de Israel; queria mudar-se para Londres, mas era economicamente inviável, por isso escolheu Cardiff, onde a vida é mais em conta.

Abrigo anti-aéreo da Segunda Guerra construído nos muros do castelo / One of the Second World War air raid shelter tunnels built in the castle walls
Wales’ history shows plainly in the language, Gaelic and English, both taught in schools and manifest in , for instance, all street signs – bilingual. Wales’ official website is written in Gaelic; you must change the language option to read the English version. I’ve felt a strong movement for recovering the national identity after ages of English rule. Wales apparently welcomed immigrants. Cardiff city tour’s guide was very proud to point out a school whose students’ origins could be tracked back to more than a hundred different countries. My roommate was from Israel; he wished to move to London, but that was too expensive for him, so he’s chosen Cardiff instead, where life was much cheaper.

Vista da amurada / View from the ramparts
Este post foi escrito há cerca de dez anos. Imagino se as coisas mudaram por lá, como reflexo dos eventos mais recentes da história ocidental.
This entry’s been written around ten years ago. I wonder if something has changed by now, considering recent events in Western history.
Compartilhe meu blog se você gostou.Share my blog if you liked it!
Read Full Post »