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Posts Tagged ‘St. Michael’s Mound’


Café com vista para o Monte St. Michael / Coffee with a view

Café com vista para o Monte St. Michael / Coffee with a view

Precisei pagar a passagem de barco para sair dali, ou voltaria nadando devido à maré cheia. Embarquei parecendo um zumbi. Além da frustração (ainda via a bandeja de Cornish Cream Tea batendo asas na minha frente!) foi um forte choque descobrir que o credicard vencera e me preocupava o outro não ter sido aceito. O que seria de mim sem cartão? Teria de ligar para a central de atendimento. Estava respirando fundo, tomando coragem para fazer a ligação, quando vi numa vitrine postais com a foto de um círculo de pedras: as Merry Maidens.

Marazion, próximo à praia/ Next to the beach

Marazion, próximo à praia/ Next to the beach

As dezenove pedras, segundo a lenda, são moças que foram petrificadas por dançar no domingo, dia santo para a Igreja Católica. Duas pedras mais afastadas seriam os músicos que estavam tocando para elas. Essas lendas sobre petrificação eram espalhadas pelos católicos com o intuito de evitar que as pessoas continuassem realizando cultos pagãos nos lugares sagrados. Fiquei com vontade de ver as pedras e soube que passava em Marazion um ônibus circular que levava a Land’s End, o fim da terra, passando pelas Merry Maidens e outros pontos turísticos. Seu ponto final na volta era perto do bed and breakfast.

Rua principal de Marazion/ Main Street

Rua principal de Marazion/ Main Street

Eu podia pagar essa passagem e ainda comprar duas Pasties, outra comida típica da Cornualha: são pastéis de forno, baratos e enormes com diversos recheios. Em Tintagel, a loja de pasties tinha sempre fila na porta. Pareciam saborosas, eu estava faminta… mas na primeira mordida já fiquei arrasada. Era intragável, um pastelão recheado de batata com um pingo de algum outro recheio misturado. Não dava para acreditar. Pastel recheado de batata! Comecei a soltar fumaça pelos ouvidos. Mesmo assim as embrulhei e guardei na mochila, visto que já estavam pagas. Como a fila era grande, eu comprara logo duas, crente que seria uma delícia. Para espairecer, fui dar um mergulho e acabei embarcando com a pele ainda molhada e salgada no ônibus circular, que tinha dois andares lotados de turistas com chapeuzinho branco. Ligaria mais tarde para o Visa.

Ônibus circular de turismo/ Drop in-Drop off tour bus

Ônibus circular de turismo/ Drop in-Drop off tour bus

O ônibus não parou nas Merry Maidens, foi direto a Land’s End. Era bem diferente de John O’Groats. Ali havia um parque, com roda gigante e diversos brinquedos. O marco ficava dentro de um cercado, e era preciso pagar para bater fotos ali. Eles montam na hora com letrinhas de plástico o nome da cidade de onde você vem e a respectiva distância em milhas. Uma mulher saiu de um guichê e impediu que um casal batesse minha foto em frente ao marco, com a minha câmera. Teria de pagar quinze libras! Ou mais, se quisesse aplicar a foto em chaveiro, caneca e outras bugigangas.

Land'sEnd in Cornwall

Land’sEnd in Cornwall

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Landscape of Land’s End / Paisagem

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O marco do fim da Terra / The landmark

O casal acabou tirando a foto, num enquadramento diferente da que eu tinha no fim da terra do outro lado. E saiu tremida. Contudo, pelo menos existe como registro. Agradeci e, irritada, fui para o ponto esperar o ônibus seguinte. O parque fica no alto de um penhasco e não há praia lá embaixo, não havia nada para fazer naquele lugar. Comi uma pastie, intragável agora que estava fria. O ônibus demorou meia hora: fiquei torrando debaixo do sol, conversando com outra turista sobre política internacional. Ela estava esperando outra condução, mas me disse que os circulares não paravam mais em diversos pontos naquele horário, iam direto de Penzance ao fim da linha e retornavam. Resignada, entrei e fiquei prestando a maior atenção para fotografar as Merry Maidens pela janela.

Merry Maidens

Merry Maidens

Merry Maidens, um minuto depois / One minute later

Merry Maidens, um minuto depois / One minute later

Um sujeito puxou assunto. Como eu estava há três dias sem conversar, exceto com a tal turista, dei trela depois de fazer a foto, e o infeliz grudou em mim. Estava estampado na testa que ele tinha algum tipo de distúrbio. Ficou doido quando soube que eu era brasileira. Sabia tudo sobre nosso futebol (muito mais do que eu) e insistia para que eu fosse me hospedar na casa dele. Jurou que me levaria para ver todos os pontos turísticos da região, que, segundo ele, conhecia como ninguém, porque morava numa cidade próxima a Penzance. Insistiu tanto que fiquei com medo – mais ainda quando chegamos a Penzance, e tive de me despedir da figura com firmeza, pois ele queria me acompanhar. Fui dar mais uma caminhada, e o sujeito surgiu na minha cola. Acabou indo embora, depois de me obrigar a aceitar uma lata de cerveja que trazia na mochila. Estava quente, mas tomei assim mesmo para que ele fosse embora. Para despistá-lo, saí da rua principal e dei umas voltas antes de entrar no bed and breakfast.

Monte St. Michael, fim de tarde. / Almost dusk.

Monte St. Michael, fim de tarde. / Almost dusk.

Pela manhã / Morning

Pela manhã / Morning

Para ser sincera, fiz algo horrível: combinei um encontro ao qual não pretendia ir. Falei que já tinha feito reserva para aquela noite e que estava muito cansada, mas prometi que no dia seguinte iria encontrá-lo em frente à rodoviária ao meio-dia para me hospedar na casa dele. Fiquei com o número de telefone para ligar assim que acordasse. Comprei um fish-and-chips para viagem, que comi no quarto e, na manhã seguinte, fugi no primeiro ônibus que saía de Penzance, às oito horas, para qualquer lugar. O destino me levou para St. Ives. Antes disso, liguei para a central de atendimento do cartão. A atendente confirmou que o Visa estava vencido e deu entrada no protocolo solicitando outro, que seria postado para o Brasil, portanto não poderia mais contar com ele nesta viagem. O Master, felizmente, estava dentro da validade e do limite, e só não passou na máquina da cafeteria por azar mesmo. Respirei aliviada.

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Praia entre Penzance e Marazion / The beach between Penzance and Marazion

Praia entre Penzance e Marazion / The beach between Penzance and Marazion

Depois de tudo que passei na véspera, resolvi me desobrigar da peregrinação. Que fosse à merda o Dozmary Pool. Acho que seria capaz de mandar à merda o próprio Arthur. Já tinha sofrido bastante por causa dele. Mas estava refeita pela noite de sono. Acordei e saí para caminhar cinco quilômetros pelo litoral até Saint Michael’s Mound, em Marazion, a cidade vizinha. Um lugar bonitinho, fofo mesmo. Era cedo, portanto o sol não estava esturricando. Soprava um vento fresco e a paisagem era linda, a longa praia com aquele castelo ao longe, plantado na ilha de Saint Michel, apenas um vulto azul acinzentado, do jeito que tudo fica azul e cinza na linha do horizonte. Como a maré estava baixa, não dava para mergulhar. Mesmo assim, passaram duas pessoas nadando.

St. Michael's Mound in Cornwall

St. Michael’s Mound, Cornualha,  na maré baixa / St. Michael’s Mound in Cornwall, low tide

After all I had gone through, I’d made up my mind about letting the pilgrimage go. To hell with Dozmary Pool. I could send to hell Arthur himself. I’d had enough of suffering for him. But a good night of sleep restored my energy, so I woke up to walk by the seaside. Three miles ahead, in the charming neighbor village called Marazion, stood Saint Michael’s Mound. At 8 a.m. the sun was still mild; a cool breeze was blowing and in the far end of the beach I could see the castle in the island, just a greyish blue shadow, like everything in the horizon looks greyish blue. I didn’t dive because it was low tide. Still, two swimmers passed by.

Marazion vista do castelo / Marazion's view from the Castle

Marazion vista do castelo na maré baixa / Marazion’s view from the Castle, low tide

A caminhada me ressuscitou. Respirava o ar marinho fresco e pisava em areia macia, coisa rara em litoral inglês. Muitos senhores cavavam a areia atrás de minhocas. Rosados e sorridentes, tinham seus anzóis e varas de pescar a postos. A terceira idade inglesa trata melhor os homens que as mulheres. Cheguei ao castelo e entrei para a visita guiada. Foi quando percebi que aquele não era o Monte Saint Michel em que eu estava pensando, que na verdade fica numa ilhota rochosa na costa da Normandia (França) onde há uma abadia beneditina, listada no patrimônio da Humanidade da UNESCO.

Karrek Loos y’n Koos – a pedra cinza na floresta / The grey stone in the woods

Karrek Loos y’n Koos – a pedra cinza na floresta / The grey stone in the woods

I came alive again with the walking, breathing the sea breeze, my feet feeling soft sand, which is not usual in British beaches. Old men were digging, looking for bait, the fishing rods and hooks all ready. They conveyed a happy mood, I realized that old age treats men better than for women in the UK. When I got to the Castle and the guided tour started I realized that it was not the famous St. Michael’s Mound I thought it were (which, as a matter of fact, is located in the Normandy coast, France, where stands a Benedictin Abbey recognized as World Heritage Site by UNESCO ).

No Castelo / Inside the Castle

Entrada do Castelo / Castle’s Gates

Início da visita / Starting the tour

Início da visita / Starting the tour

Este Saint Michel inglês era uma fortaleza do século XVIII plantada numa ilha bem perto da costa. Tão perto que na maré baixa vai-se andando da praia até ali. Quando a maré sobe é preciso ir de barco. Em dialeto Cornish, o nome era Karrek Loos y’n Koos – a pedra cinza na floresta.
O castelo não era um monumento espiritual, mas histórico. Aquele forte protegia a cidade dos ataques de navios invasores. Da torre mais alta, a vista se perdia mar adentro. Assim, embora me sentisse uma anta pela confusão, estava aproveitando o passeio.

Um casal de portugueses bateu minha foto, mas confesso que fiquei tensa por me afastar tanto da câmera! / A nice portuguese couple offered to take my picture; I must admit I wasn't at ease so far away from my camera.

Um casal de portugueses bateu minha foto, mas confesso que fiquei tensa por me afastar tanto da câmera! / A nice portuguese couple I was talking to offered to take my picture; I must admit I wasn’t at ease so far away from my camera.

This castle was a XVIII century fortress, which name in Cornish dialect meant “The grey stone in the woods”. A historical monument instead of a spiritual one. That fortress kept the city safe from pirate and invaders’ ships. From the highest tower, the sea landscape stretched as far as the eyes could see. In low tide one can go on foot from the beach to the island, but in high tide one must take a boat. I had walked, and I was enjoying the tour, although feeling a stupid for the mistake.

Paisagem vista da torre / Sea landscape viewed from the tower

Paisagem vista da torre / Sea landscape viewed from the tower

Havia uma lanchonete espetacular. Mesas e bancos de madeira numa varanda com vista para o mar, e  todo tipo de gordices expostas. Já que eu tinha decidido não sofrer mais, fiz uma bandeja de Cornish Cream Tea, que consiste em chá ou café com os melhores pãezinhos do mundo, tipo brioches e clotted cream – chantilly de creme fresco. Na Inglaterra, existem variações do creme de leite, como sour cream, double cream, half cream – cada um melhor do que o outro. Estava querendo esse Cornish Tea desde Tintagel, onde era servido em vários cafés na avenida principal. O creme era para passar no pão, e vinha também uma tigelinha de geleia. Além do Cornish Tea, pedi uma fatia de cheesecake.

Detalhe do Castelo / Detail of the Castle

Detalhe do Castelo / Detail of the Castle

The castle had a breathtaking coffee shop. The wooden seats were in a porch overlooking the sea, and  the window showed all kind of delicious pies and breads and pastries. I had made up my mind about not suffering anymore, so I entered the line and asked for a Cornish Cream Tea. That was something I was tempted to try since I saw it in Tintagel, a local delicacy, served in every Tea Room and Coffee shop. It consists in a cup of tea or coffee with freshly baked scones – soft, the best in the world – fruity jam and clotted cream. I love all kinds of British creams: the sour cream, the double cream, half cream, but most of all the clotted cream. I wanted so badly this Cornish Cream Tea! And I asked for a slice of cheesecake too.

Cornish Cream Tea

Cornish Cream Tea

Já estava comendo com os olhos quando passei com a bandeja no caixa, e foi quando meu mundo caiu: o cartão Visa tinha expirado na véspera. Antes de querer morrer, saquei o Master. Também tinha um cartão Diners, mas ninguém aceitava em lugar nenhum (exceto o lastminute.com – um guichê de passagens que fica bem na entrada da Victoria Station). O Master também não passou. A atendente do caixa achou que também estava vencido e sugeriu que eu pagasse em dinheiro. Como tinha levado pouco e ainda eram onze horas – tinha todo o dia pela frente – precisei abrir mão da torta e do Cornish Tea. Tomei apenas um café.

Maré alta: é preciso pagar o barquinho para a volta. / In high tide you must pay the boat to get back.

Maré alta: é preciso pagar o barquinho para a volta. /
In high tide you must pay the boat to get back.

Eating with my eyes, I pulled my Visa card out of the wallet. And that was when my world came crumbling down. The card had expired in the eve. Before feeling that deathwish, I tried the MasterCard. (I also had a Diners but it was accepted nowhere – the only exception was the lastminute.com ticket office in Victoria Station). The Master also failed. The clerk thought it expired too and suggested me to pay cash. But my cash was low, it was 11 a.m. and I had the whole day before me. So I gave up the cheesecake and the Cornish Cream Tea, and had a cup of coffee instead.

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