Precisei pagar a passagem de barco para sair dali, ou voltaria nadando devido à maré cheia. Embarquei parecendo um zumbi. Além da frustração (ainda via a bandeja de Cornish Cream Tea batendo asas na minha frente!) foi um forte choque descobrir que o credicard vencera e me preocupava o outro não ter sido aceito. O que seria de mim sem cartão? Teria de ligar para a central de atendimento. Estava respirando fundo, tomando coragem para fazer a ligação, quando vi numa vitrine postais com a foto de um círculo de pedras: as Merry Maidens.
As dezenove pedras, segundo a lenda, são moças que foram petrificadas por dançar no domingo, dia santo para a Igreja Católica. Duas pedras mais afastadas seriam os músicos que estavam tocando para elas. Essas lendas sobre petrificação eram espalhadas pelos católicos com o intuito de evitar que as pessoas continuassem realizando cultos pagãos nos lugares sagrados. Fiquei com vontade de ver as pedras e soube que passava em Marazion um ônibus circular que levava a Land’s End, o fim da terra, passando pelas Merry Maidens e outros pontos turísticos. Seu ponto final na volta era perto do bed and breakfast.
Eu podia pagar essa passagem e ainda comprar duas Pasties, outra comida típica da Cornualha: são pastéis de forno, baratos e enormes com diversos recheios. Em Tintagel, a loja de pasties tinha sempre fila na porta. Pareciam saborosas, eu estava faminta… mas na primeira mordida já fiquei arrasada. Era intragável, um pastelão recheado de batata com um pingo de algum outro recheio misturado. Não dava para acreditar. Pastel recheado de batata! Comecei a soltar fumaça pelos ouvidos. Mesmo assim as embrulhei e guardei na mochila, visto que já estavam pagas. Como a fila era grande, eu comprara logo duas, crente que seria uma delícia. Para espairecer, fui dar um mergulho e acabei embarcando com a pele ainda molhada e salgada no ônibus circular, que tinha dois andares lotados de turistas com chapeuzinho branco. Ligaria mais tarde para o Visa.
O ônibus não parou nas Merry Maidens, foi direto a Land’s End. Era bem diferente de John O’Groats. Ali havia um parque, com roda gigante e diversos brinquedos. O marco ficava dentro de um cercado, e era preciso pagar para bater fotos ali. Eles montam na hora com letrinhas de plástico o nome da cidade de onde você vem e a respectiva distância em milhas. Uma mulher saiu de um guichê e impediu que um casal batesse minha foto em frente ao marco, com a minha câmera. Teria de pagar quinze libras! Ou mais, se quisesse aplicar a foto em chaveiro, caneca e outras bugigangas.
O casal acabou tirando a foto, num enquadramento diferente da que eu tinha no fim da terra do outro lado. E saiu tremida. Contudo, pelo menos existe como registro. Agradeci e, irritada, fui para o ponto esperar o ônibus seguinte. O parque fica no alto de um penhasco e não há praia lá embaixo, não havia nada para fazer naquele lugar. Comi uma pastie, intragável agora que estava fria. O ônibus demorou meia hora: fiquei torrando debaixo do sol, conversando com outra turista sobre política internacional. Ela estava esperando outra condução, mas me disse que os circulares não paravam mais em diversos pontos naquele horário, iam direto de Penzance ao fim da linha e retornavam. Resignada, entrei e fiquei prestando a maior atenção para fotografar as Merry Maidens pela janela.
Um sujeito puxou assunto. Como eu estava há três dias sem conversar, exceto com a tal turista, dei trela depois de fazer a foto, e o infeliz grudou em mim. Estava estampado na testa que ele tinha algum tipo de distúrbio. Ficou doido quando soube que eu era brasileira. Sabia tudo sobre nosso futebol (muito mais do que eu) e insistia para que eu fosse me hospedar na casa dele. Jurou que me levaria para ver todos os pontos turísticos da região, que, segundo ele, conhecia como ninguém, porque morava numa cidade próxima a Penzance. Insistiu tanto que fiquei com medo – mais ainda quando chegamos a Penzance, e tive de me despedir da figura com firmeza, pois ele queria me acompanhar. Fui dar mais uma caminhada, e o sujeito surgiu na minha cola. Acabou indo embora, depois de me obrigar a aceitar uma lata de cerveja que trazia na mochila. Estava quente, mas tomei assim mesmo para que ele fosse embora. Para despistá-lo, saí da rua principal e dei umas voltas antes de entrar no bed and breakfast.
Para ser sincera, fiz algo horrível: combinei um encontro ao qual não pretendia ir. Falei que já tinha feito reserva para aquela noite e que estava muito cansada, mas prometi que no dia seguinte iria encontrá-lo em frente à rodoviária ao meio-dia para me hospedar na casa dele. Fiquei com o número de telefone para ligar assim que acordasse. Comprei um fish-and-chips para viagem, que comi no quarto e, na manhã seguinte, fugi no primeiro ônibus que saía de Penzance, às oito horas, para qualquer lugar. O destino me levou para St. Ives. Antes disso, liguei para a central de atendimento do cartão. A atendente confirmou que o Visa estava vencido e deu entrada no protocolo solicitando outro, que seria postado para o Brasil, portanto não poderia mais contar com ele nesta viagem. O Master, felizmente, estava dentro da validade e do limite, e só não passou na máquina da cafeteria por azar mesmo. Respirei aliviada.






















